Princesa de Arabella

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resumo

Nome: Seraphyne Duskwinther
Origem: Floresta de Arabella
Idade: 19 anos
Altura: 30 cm (1 metro com aumentar e reduzir)
Parentesco: Rainha Rainara Lillithwither e Rei Vernathor Duskwither
Classe: Ladino e Bruxa
Alinhamento: Caótico Bom

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personalidade e aparência

Persona e aparência atual: Uma pequena fada de aproximadamente 30 centímetros de altura, de beleza tão delicada quanto inquietante. Sua pele possui um tom violeta suave, contrastando com os elegantes traços élficos de seu rosto. Seus olhos dourados brilham intensamente, sempre atentos, enquanto discretas marcas em espiral adornam ambas as bochechas, reforçando sua natureza sobrenatural. Seus cabelos curtos, de um profundo roxo-escuro, são levemente desalinhados, com algumas mechas onduladas emoldurando seu rosto de forma elegante.

De suas costas se estendem grandes asas translúcidas, finas como cristal, que refletem tons de verde-água e turquesa conforme a luz as atravessa. Delicados padrões dourados percorrem suas membranas, culminando em um antigo pentagrama gravado próximo à base de cada asa, como uma marca de um pacto ancestral.

Sobre o corpo, Seraphyne veste um antigo manto com capuz, gasto pelo tempo e repleto de remendos, de tonalidade verde-musgo com nuances envelhecidas. O tecido parece carregar séculos de histórias, coberto por discretos bordados ocultistas e símbolos arcanos quase apagados. Sob o manto, suas roupas leves preservam a liberdade de movimento típica de uma ladina, enquanto pequenos acessórios e joias discretas completam sua aparência, conferindo-lhe uma elegância misteriosa que mistura o encanto das fadas com a aura sombria de uma bruxa marcada por pactos antigos.

Itens de interesse

MASCARA DE KITSUNE
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MANTO DO DESLOCAMENTO
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AMULETO ARCHEFEY
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ADAGAS ENCANTADAS
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História

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No coração da Floresta Sangrenta, onde a névoa carregava o gosto metálico do ferro e o perfume da ferrugem, erguia-se Arabella — um reino que jamais deveria ter existido.

Diferente das demais cortes feéricas, suas habitantes não nasciam de flores, cogumelos ou raios de luar. As fadas da ferrugem despertavam do interior de antigas árvores de casca avermelhada, troncos retorcidos que pareciam enferrujar como velhas armaduras esquecidas pelo tempo. Quando a madeira se rompia, revelava pequenas figuras envoltas por seiva escura, como se a própria floresta desse à luz suas filhas.

O ar daquele lugar possuía um gosto constante de sangue antigo. A umidade impregnava tudo com um cheiro metálico, e até mesmo a brisa parecia carregar fragmentos invisíveis de ferrugem. Para quem vinha de fora, respirar em Arabella era como manter uma moeda de ferro sobre a língua durante horas.

Mas para suas habitantes... aquilo era simplesmente o cheiro de casa.

A floresta que envolvia o reino era tão bela quanto monstruosa.

Entre árvores vivas de raízes pulsantes, vagavam criaturas deformadas pela própria natureza daquele mundo. Animais que haviam esquecido sua forma original, espíritos consumidos pela terra e seres cuja simples existência parecia desafiar qualquer lógica. Poucos ousavam atravessar aquelas matas, e menos ainda retornavam.

Por isso, uma fada da ferrugem quase nunca era vista sozinha.

Desde o nascimento, aprendiam que a sobrevivência dependia do enxame. Permanecer isolada significava tornar-se alimento para aquilo que habitava além das muralhas naturais da floresta. Permanecer unida significava viver mais um dia.

Foi justamente desse medo que Arabella nasceu.

O reino não surgiu da ambição de governar, nem do desejo por riquezas. Surgiu da necessidade mais primitiva que existe: sobreviver.

Pequenos agrupamentos de fadas foram, pouco a pouco, encontrando uns aos outros em meio à mata hostil. Construíram refúgios entre as árvores, abriram caminhos seguros e transformaram a cooperação em uma tradição muito mais antiga que qualquer lei.

Com o passar das gerações, perceberam algo simples.

Sozinhas, eram frágeis.

Juntas, podiam enfrentar até mesmo aquilo que parecia impossível.

As fadas da ferrugem viviam pouco. Raramente ultrapassavam os dezesseis anos de idade, como se a própria floresta cobrasse delas um preço por existir. Sabendo que suas vidas seriam breves, cresciam sem medo da morte.

Pelo contrário.

Morrer pelo reino era considerado uma das maiores demonstrações de amor que uma fada poderia oferecer às demais.

Apesar de não dependerem de parceiros para gerar novas vidas, eram criaturas intensamente emocionais. Sentiam alegria, tristeza, afeto e compaixão com uma intensidade quase dolorosa. Seus vínculos eram profundos, e justamente por isso cada perda carregava um peso que parecia atravessar toda a comunidade.

Foi essa mistura entre amor coletivo e medo constante que moldou Arabella.

Entretanto, a união das fadas, por si só, jamais seria suficiente para protegê-las da floresta.

Havia algo muito mais antigo habitando aquelas terras.

Uma presença que existia muito antes da primeira árvore enferrujada brotar do solo.

Uma entidade imanente.

As gerações futuras aprenderiam a chamá-la de Chrazgor.

Ou, pelo menos...

Era esse o nome que ousavam lhe dar.

Ninguém sabia se aquele realmente era seu verdadeiro nome. Talvez fosse apenas um som traduzido para algo que uma mente feérica pudesse compreender. Talvez nem mesmo a criatura possuísse um nome. Ainda assim, "Chrazgor" tornou-se a palavra utilizada para invocar sua proteção... e também seu temor.

As primeiras fadas descobriram, lentamente, que oferecer vidas em sacrifício fazia a floresta silenciar.

As criaturas grotescas desapareciam por um tempo.

As caçadas tornavam-se mais seguras.

As colheitas prosperavam.

As árvores davam origem a novas fadas.

Era um preço terrível.

Mas era um preço que garantia a continuidade do reino.

Assim, os sacrifícios tornaram-se parte da rotina de Arabella.

Não eram vistos como punições.

Nem como execuções.

Eram cerimônias de gratidão.

Um ato de devoção.

Uma última demonstração de amor para com todas as outras fadas.

Como a expectativa de vida era naturalmente curta, entregar os últimos dias à proteção do reino passou a ser encarado como uma honra reservada aos mais valorosos.

Entretanto, Chrazgor não apreciava desordem.

Sacrifícios realizados de maneira descuidada eram ignorados.

Rituais incompletos despertavam sua ira silenciosa.

Foi então que surgiu uma ordem responsável por preservar cada detalhe da liturgia.

Os Acólitos Carmesim.

Escolhidos entre as próprias fadas, esses sacerdotes dedicavam toda a existência à vontade da entidade. Eram responsáveis por organizar as cerimônias, selecionar os oferendados, preservar os antigos cânticos e, acima de tudo, ensinar às novas gerações que servir a Chrazgor era um privilégio.

Sua maior função, porém, não era realizar os rituais.

Era moldar a forma como eles eram percebidos.

As crianças aprendiam desde cedo que o sacrifício não deveria ser lamentado.

Os pais sorriam ao entregar seus filhos.

Os amigos cantavam durante as despedidas.

O medo jamais deveria existir.

A tristeza jamais deveria ser demonstrada.

Pois Chrazgor não desejava obediência obtida pela força.

Desejava devoção espontânea.

Mesmo assim...

A realidade jamais era bela.

Quando chegava o momento da oferenda, a fada escolhida era conduzida até as águas avermelhadas que serpenteavam o coração da floresta. Enquanto dezenas de vozes repetiam, em perfeita sincronia, o nome de Chrazgor em antigos cânticos que pareciam não pertencer àquele mundo, uma marca surgia lentamente sobre seu tórax.

Uma mandíbula.

Primeiro como uma cicatriz.

Depois como carne viva.

Então, os ossos começavam a responder ao chamado.

As costelas se retorciam para fora do corpo, dobrando-se umas contra as outras até assumirem a forma de uma gigantesca mandíbula grotesca. A estrutura inteira da vítima deixava de obedecer às leis da anatomia, transformando-se em uma flor feita de dentes, cartilagem e ossos vivos.

Não havia gritos.

Apenas os cânticos.

E, quando a transformação finalmente terminava, a terra se abria.

As raízes envolviam aquele corpo deformado enquanto as águas rubras pareciam respirar ao seu redor.

Em poucos instantes, não restava absolutamente nada.

Nem carne.

Nem ossos.

Nem memória.

Somente o silêncio.

E assim...

Sacrifício após sacrifício...

Primavera após primavera...

Arabella permaneceu de pé durante incontáveis gerações, protegida por uma paz construída sobre oferendas que seu próprio povo aprendera a chamar de amor.
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Em meio ao sangue que encharcava as raízes da floresta, ao cheiro constante de ferrugem impregnado no ar e ao silêncio opressor quebrado apenas pelos cânticos dos Acólitos Carmesim, Arabella seguia existindo como sempre existira.

Algumas fadas viviam consumidas pelo medo, agarrando-se desesperadamente a cada novo amanhecer, temendo que seu nome fosse o próximo a ecoar nos rituais de oferenda. Outras, moldadas desde o nascimento pela certeza de que suas vidas seriam breves, caminhavam com uma serenidade inquietante. Para elas, morrer pelo reino não era uma tragédia, mas o desfecho mais digno que poderiam alcançar.

A vida e a morte conviviam lado a lado, indistinguíveis.

Naquele reino, esperança e resignação compartilhavam o mesmo rosto.

Foi então que algo incomum aconteceu.

Algo tão raro que muitos acreditariam tratar-se de um presságio.

Vindos de além das fronteiras naturais de Arabella — um feito quase impensável para qualquer fada da ferrugem — dois viajantes atravessaram os antigos caminhos da Floresta Sangrenta.

Não retornavam de uma caçada.

Não traziam despojos de criaturas abatidas.

Nem carregavam relíquias arrancadas da mata.

Entre suas mãos repousava algo que parecia pertencer a outro mundo.

Uma pequena fruta.

Redonda, delicada e luminosa.

Sua superfície possuía o branco puro da neve recém-caída, sem qualquer mancha de ferrugem, sangue ou podridão. Sob a luz avermelhada filtrada pelas copas da floresta, ela emitia um brilho suave, quase celestial, como se recusasse silenciosamente a aceitar a corrupção daquele lugar.

Era talvez o objeto mais puro que aquelas terras haviam contemplado em incontáveis gerações.

Até mesmo o vento parecia hesitar ao tocá-la.

As folhas retorcidas permaneciam imóveis.

Os pássaros silenciavam.

E, por um breve instante, a própria floresta pareceu observar.

Quem carregava aquele estranho fruto era um jovem casal de fadas.

Rainara Lillithwither e Vernathor Duskwither.

Seus rostos denunciavam o cansaço de uma longa jornada, mas seus olhos guardavam algo que Arabella há muito havia esquecido: esperança.

Eles protegiam o pequeno fruto com um cuidado quase sagrado, como pais que amparam um recém-nascido contra um mundo incapaz de compreender sua existência.

Nenhum dos dois dizia uma palavra.

Não era necessário.

Bastava observar a delicadeza com que suas mãos envolviam aquela pequena esfera branca para compreender que, dentro dela, existia algo infinitamente mais precioso do que uma simples semente.

Ali repousava uma nova vida.

Uma vida que ainda não conhecia o gosto do ferro.

Que jamais ouvira os cânticos dedicados a Chrazgor.

Que ainda não aprendera que, em Arabella, toda beleza costumava cobrar um preço.

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Rainara era diferente de qualquer fada que Arabella já havia conhecido.

Enquanto as fadas da ferrugem possuíam asas delicadas e translúcidas, semelhantes às de libélulas ou borboletas, as dela pareciam pertencer a outra criatura. Eram longas, rígidas e possuíam a aparência das asas de uma enorme cigarra, cobertas por finas nervuras que refletiam discretamente a luz avermelhada da floresta. Quando permaneciam fechadas, envolviam completamente seu corpo como um manto, ocultando sua silhueta sob uma espécie de capa natural. Somente ao abri-las era possível perceber que, na verdade, eram asas.

Ela própria costumava dizer que, um dia, sua pele havia sido tão rosada quanto pétalas recém-desabrochadas.

Mas Arabella mudava tudo aquilo que permanecia tempo suficiente em seu interior.

Pouco a pouco, sua pele assumira um tom alaranjado, marcado pelos mesmos traços enferrujados que tingiam as demais fadas do reino. A transformação não parecia incomodá-la. Era como se aceitasse que algumas mudanças fossem inevitáveis.

Rainara falava pouco.

Na verdade, pouco seria um exagero.

Ela quase nunca dizia nada.

Passava horas observando as pessoas ao seu redor, escutando conversas, percebendo detalhes que escapavam aos demais. Seu silêncio nunca era desconfortável. Pelo contrário. Havia algo em sua presença que fazia qualquer ambiente parecer mais tranquilo, como se ela compreendesse muito mais do que precisava expressar.

Ao seu lado caminhava Vernathor Duskwither.

Se Rainara era silêncio, Vernathor era voz.

Conversava com todos que cruzavam seu caminho, do mais humilde artesão aos próprios Acólitos Carmesim. Entretanto, jamais falava em excesso. Escolhia cada palavra com um cuidado quase cirúrgico, como alguém que entendesse o peso que uma simples frase poderia carregar. Nunca levantava a voz. Nunca demonstrava pressa. Suas respostas eram sempre ponderadas, gentis e surpreendentemente lúcidas.

Os dois pareciam completar um ao outro de maneira tão natural que muitos sequer ousavam perguntar qual era, de fato, a natureza de sua relação.

Eram marido e mulher?

Companheiros?

Almas destinadas a caminhar juntas?

Nem eles pareciam preocupar-se em definir aquilo.

Simplesmente existiam lado a lado, como duas partes inseparáveis de uma mesma história.

A curiosidade dos habitantes de Arabella, entretanto, voltava-se para outra questão.

De onde haviam vindo?

Era raro encontrar qualquer criatura capaz de alcançar o reino vinda do exterior. Sobreviver à Floresta Sangrenta já era um feito extraordinário. Encontrá-la carregando consigo um fruto tão puro quanto aquele parecia impossível.

As perguntas surgiam diariamente.

Como encontraram Arabella?

O que existia além da floresta?

Quem os enviara?

Rainara apenas sorria em silêncio.

Vernathor respondia sempre da mesma maneira.

— Fomos guiados até aqui por uma força maior.

Naturalmente, a resposta despertava ainda mais dúvidas.

Maior que Chrazgor?

Algumas fadas perguntavam quase em um sussurro, receosas até de pronunciar aquele nome.

Vernathor nunca respondia de imediato.

Apenas abaixava o olhar por alguns instantes antes de dizer, com absoluta sinceridade:

— Não sabemos.

E realmente parecia não saber.

Não havia hesitação em sua voz, tampouco qualquer intenção de esconder a verdade. Era simplesmente uma pergunta para a qual ele não possuía resposta.

Apesar do mistério que envolvia suas origens, conquistar a confiança do povo de Arabella foi surpreendentemente fácil.

Rainara e Vernathor possuíam uma bondade difícil de explicar.

Eles ajudavam sem esperar recompensa.

Escutavam antes de aconselhar.

Dividiam alimento, tempo e conhecimento com qualquer fada que precisasse.

Mesmo em um reino acostumado à morte, conseguiam fazer as pessoas sentirem que a vida ainda possuía algum valor.

Era curioso.

Onde quer que estivessem, discussões diminuíam.

Conflitos pareciam perder importância.

As pessoas falavam mais baixo.

Sorriam com mais frequência.

A presença daquele casal trazia uma paz que Arabella não conhecia havia muito tempo.

Pouco a pouco, eles deixaram de ser apenas visitantes.

Construíram sua própria morada entre as árvores enferrujadas e passaram a compreender os costumes do reino. Conheceram os rituais de Chrazgor, ouviram as antigas canções dos Acólitos Carmesim e testemunharam, mais de uma vez, o destino reservado às fadas escolhidas para a oferenda.

Jamais protestaram.

Jamais tentaram impedir os sacrifícios.

Não porque aprovassem o que acontecia, mas porque compreendiam que aquele era um mundo moldado por regras muito mais antigas do que eles próprios.

Seu único desejo era outro.

Proteger a pequena fruta branca que haviam trazido consigo.

Toda decisão que tomavam, toda escolha que faziam e cada passo que davam pareciam conduzi-los ao mesmo propósito silencioso: oferecer àquela futura vida o maior conforto e segurança possíveis, mesmo em um reino onde ambos pareciam impossíveis.

Com o passar dos anos, a sabedoria do casal tornou-se conhecida por toda Arabella.

Quando surgia um conflito entre famílias, chamavam Vernathor.

Quando alguém precisava de consolo, procurava Rainara.

Quando uma decisão importante precisava ser tomada, ambos eram convidados a participar.

Nenhum deles ocupava um cargo oficial.

Ainda assim, não demorou para que todo o reino passasse a chamá-los de Conselheiros de Arabella.

Não porque governassem.

Mas porque, entre todas as vozes daquele reino marcado pelo medo, eram as únicas que pareciam buscar, genuinamente, o melhor caminho para todos.
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O tempo continuou a correr em Arabella.

Estações passavam, novas fadas despertavam de suas árvores e outras desapareciam entre as raízes da Floresta Sangrenta. Os rituais continuavam, os Acólitos Carmesim mantinham seus cânticos e as águas avermelhadas continuavam correndo por entre as terras do reino.

Mas Arabella nunca dormia de verdade.

Mesmo durante as madrugadas mais silenciosas, havia sempre alguma coisa se movendo entre as árvores. As folhas enferrujadas balançavam mesmo quando não havia vento, criaturas distantes urravam para uma lua escondida pela névoa, e pequenas luzes atravessavam a floresta sem que ninguém soubesse exatamente a quem pertenciam.

Foi durante uma dessas madrugadas que a espera de Rainara e Vernathor finalmente terminou.

Chovia naquela noite.

Não era uma tempestade violenta, apenas uma chuva constante que escorria pelas copas avermelhadas e fazia o cheiro de ferro da floresta tornar-se ainda mais forte. A água batia suavemente contra a madeira da pequena residência dos Duskwither enquanto, no interior, o fruto branco que os acompanhara desde sua chegada a Arabella começava a mudar.

Depois de tantos anos sendo cuidadosamente protegido, seu brilho havia se tornado mais intenso.

Rainara percebeu primeiro.

Como de costume, não disse nada.

Apenas permaneceu diante do fruto, observando enquanto pequenas fissuras surgiam lentamente sobre sua superfície branca.

Vernathor logo se aproximou.

Naquela madrugada, não houve Acólitos Carmesim.

Não houve cânticos.

Nenhuma cerimônia foi preparada e nenhuma multidão foi convocada para testemunhar o acontecimento.

Muito menos houve uma coroação.

Afinal, ninguém em Arabella se considerava rei de ninguém.

Rainara e Vernathor eram os Conselheiros de Arabella porque o povo assim havia escolhido chamá-los, não porque possuíssem qualquer autoridade sobre os demais. E aquela criança, independentemente de quem fossem seus pais, nasceria como qualquer outra habitante daquele lugar.

Uma fada entre fadas.

O fruto finalmente se abriu.

Suas pétalas brancas separaram-se lentamente, deixando escapar uma luz suave que iluminou o pequeno cômodo. Por alguns instantes, aquela claridade pareceu expulsar os tons avermelhados que dominavam tudo em Arabella.

E dentro dele estava uma pequena fada.

Sua pele era rosada e delicada, muito diferente dos tons alaranjados e enferrujados tão comuns entre as habitantes daquele reino. Pequena até mesmo para os padrões de seu povo, ela permaneceu envolvida pelos restos macios do fruto enquanto seus pais simplesmente a observavam.

Rainara, sempre tão difícil de compreender, não conseguiu esconder o que sentia.

Vernathor, sempre tão cuidadoso com suas palavras, não encontrou nenhuma que fosse necessária.

Naquela madrugada chuvosa, os Conselheiros de Arabella não precisavam aconselhar ninguém.

Eram apenas dois pais olhando para sua filha.

Deram-lhe o nome de Seraphyne Duskwither.

A mais nova fada da ferrugem.

Quando a chuva finalmente cessou e o reino despertou para mais um de seus dias, Rainara e Vernathor apresentaram Seraphyne aos habitantes de Arabella.

Não houve uma grande celebração. Ainda assim, os dois fizeram questão de carregá-la entre as pequenas moradias construídas nas árvores e mostrá-la àqueles que, durante tantos anos, haviam aprendido a confiar neles.

Pela primeira vez desde que chegaram ao reino, havia um orgulho diferente nos dois.

Não era a satisfação de terem resolvido algum conflito.

Não era a tranquilidade de terem ajudado alguém.

Era algo deles.

Algo que haviam trazido consigo através da Floresta Sangrenta, protegido durante todos aqueles anos e que, finalmente, estava vivo diante de seus olhos.

Seraphyne cresceu cercada por cuidado.

Talvez até cuidado demais.

Rainara e Vernathor conheciam os perigos de Arabella e fizeram tudo ao seu alcance para impedir que a filha precisasse conhecê-los cedo demais. Não eram os habitantes do reino que os preocupavam. Pelo contrário. As fadas da ferrugem receberam Seraphyne como uma das suas.

O perigo estava em tudo aquilo que cercava aquela comunidade.

Na floresta.

Nas criaturas deformadas que caminhavam além dos caminhos seguros.

Nas águas vermelhas.

Nos rituais.

E na presença invisível que parecia existir sob cada raiz daquele lugar.

Por isso, durante boa parte da infância, Seraphyne conheceu Arabella principalmente através dos pais.

Rainara ensinava através da observação. Mostrava plantas, pequenos animais e os sinais que a floresta deixava para aqueles que soubessem enxergá-los. Vernathor explicava aquilo que a filha não compreendia, sempre encontrando palavras simples para responder às incontáveis perguntas que surgiam.

Talvez por ter crescido cercada daquela forma, Seraphyne tornou-se uma criança extraordinariamente bondosa.

Era curiosa, cuidadosa e possuía uma preocupação quase natural com os outros. Se encontrava alguém machucado, queria ajudar. Se percebia outra fada triste, permanecia por perto até conseguir arrancar dela alguma reação. Pequenos problemas alheios rapidamente se tornavam também problemas de Seraphyne.

Ela sentia muito.

Assim como todas as fadas da ferrugem.

Quando ficou velha o suficiente para que Rainara e Vernathor finalmente permitissem que explorasse partes de Arabella sem a companhia constante deles, um mundo inteiro pareceu se abrir diante dela.

Seraphyne começou a conhecer verdadeiramente as outras fadas.

Passava pelas casas, conversava com artesãos, observava os grupos que retornavam da floresta e fazia amizade com praticamente qualquer criatura disposta a lhe oferecer alguns minutos de atenção.

Foi então que começou a perceber algo que, durante a infância protegida pelos pais, nunca havia compreendido completamente.

As pessoas desapareciam.

Não era estranho conhecer alguém em Arabella e, poucos dias depois, simplesmente nunca mais encontrá-lo.

Seraphyne podia conversar durante horas com uma fada numa tarde, decorar seu nome, ouvir suas histórias e prometer que voltaria para vê-la...

E, na semana seguinte, ela não estava mais lá.

No começo, Seraphyne acreditava que apenas não estava procurando direito.

Perguntava aos outros.

— Onde está aquela fada que estava aqui semana passada?

Algumas haviam morrido na floresta.

Outras simplesmente haviam chegado ao fim de suas breves vidas.

E algumas...

Tinham sido escolhidas.

As respostas eram sempre dadas com uma naturalidade que Seraphyne ainda não conseguia compartilhar.

Ninguém parecia indignado.

Ninguém parecia particularmente surpreso.

Às vezes havia tristeza, certamente. As fadas da ferrugem sentiam profundamente a ausência umas das outras.

Mas havia também aceitação.

Seraphyne não entendia aquilo.

Ainda não.

Para uma criança que havia sido ensinada a cuidar de tudo aquilo que estava ao seu redor, havia algo profundamente estranho em um lugar onde alguém podia estar sorrindo diante dela em uma semana...

E simplesmente não existir na seguinte.

Era provavelmente a primeira coisa em Arabella que Seraphyne percebeu que não conseguia compreender.

E estava longe de ser a última.
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Com o passar do tempo, Seraphyne deixou de ser apenas a pequena filha dos Conselheiros.

Ela passou a fazer parte de Arabella.

Seu jeito naturalmente sorridente tornava difícil não gostar de sua companhia. Seraphyne estava quase sempre disposta a ajudar alguém, mesmo quando sua ajuda não era exatamente necessária. Carregava coisas que mal conseguia levantar, oferecia-se para procurar objetos perdidos e interrompia suas próprias brincadeiras sempre que percebia alguma fada precisando de auxílio.

Não demorou para que fizesse muitas amizades.

Entre todas elas, porém, havia duas com quem Seraphyne gostava especialmente de passar seu tempo.

As irmãs Manolli.

Fink e Dink.

As duas compartilhavam uma característica que imediatamente chamou a atenção de Seraphyne: eram incapazes de permanecer quietas por muito tempo.

Enquanto outras jovens fadas brincavam próximas às moradias, entre raízes conhecidas e caminhos seguros, Fink e Dink gostavam de chegar um pouco mais perto daquilo que não deveriam.

A floresta.

Não chegavam a se aventurar profundamente por ela. Mesmo as duas sabiam que isso seria estupidez. Bastavam alguns metros além dos limites considerados seguros de Arabella para que a paisagem começasse a mudar.

E era justamente essa pequena transgressão que tornava tudo tão divertido.

Para as irmãs Manolli, atravessar os últimos caminhos conhecidos do reino e avançar alguns metros entre as árvores era uma aventura extraordinária.

Corriam entre raízes, escondiam-se atrás dos troncos enferrujados e desafiavam umas às outras a avançar cada vez mais longe.

— Só até aquela árvore.

Chegavam até ela.

Então apontavam para outra.

— Agora só até aquela.

E depois outra.

Era assim que alguns metros facilmente se transformavam em muitos.

Seraphyne adorava acompanhá-las.

Talvez gostasse até mais do que deveria.

Havia alguma coisa fascinante na sensação de ultrapassar os limites de Arabella. Bastava afastar-se um pouco das casas para que todos os sons familiares começassem a desaparecer.

As conversas ficavam distantes.

Os cânticos já não podiam ser ouvidos.

As pequenas luzes das moradias desapareciam entre os troncos.

Então restavam apenas as três.

E a floresta.

Ali, tudo parecia maior.

As árvores se erguiam como gigantes acima delas, com raízes largas o suficiente para esconder dezenas de fadas. O cheiro de ferro tornava-se mais forte e, ocasionalmente, alguma coisa se movimentava entre os arbustos sem que nenhuma das três conseguisse identificar o que era.

Era assustador.

E justamente por isso Seraphyne adorava.

O coração acelerava.

As asas tremiam.

Qualquer galho quebrando era suficiente para fazer as três congelarem.

Então percebiam que não havia nada ali e começavam a rir umas das outras.

Fink e Dink transformavam o medo em brincadeira.

Às vezes competiam para descobrir quem conseguia chegar mais longe. Em outras ocasiões, procuravam objetos estranhos trazidos pela floresta: sementes deformadas, pedaços de cascas com formatos curiosos, penas de criaturas que nenhuma delas conhecia ou pequenas pedras avermelhadas que brilhavam quando colocadas contra a luz.

Seraphyne sempre voltava carregando alguma coisa.

E quase sempre tentava esconder de seus pais onde havia conseguido.

Quase nunca funcionava.

Rainara percebia.

Rainara sempre percebia.

Bastava Seraphyne atravessar a porta com folhas presas aos cabelos, barro nas roupas ou aquele cheiro particularmente forte de floresta impregnado no corpo para sua mãe cruzar os braços e encará-la em silêncio.

Para Seraphyne, aquele silêncio era muito pior do que qualquer bronca.

Vernathor geralmente era quem transformava o olhar da esposa em palavras.

— Seraphyne...

Ela imediatamente escondia as mãos atrás das costas.

— Nós já conversamos sobre isso.

Então começavam as explicações.

Ela não tinha ido longe.

Fink e Dink estavam junto.

Elas conseguiam ver Arabella o tempo inteiro.

Não encontraram criatura nenhuma.

Foram apenas alguns metros.

Sempre alguns metros.

Vernathor escutava todas as justificativas com a mesma paciência de sempre.

E depois explicava novamente aquilo que Seraphyne já ouvira dezenas de vezes.

A floresta não precisava levar alguém para ser perigosa.

Não precisava rugir.

Não precisava mostrar dentes.

Algumas das criaturas que habitavam aquelas terras eram pacientes.

Outras sabiam se esconder.

E algumas coisas existentes além de Arabella eram perigosas justamente porque pareciam inofensivas.

Seraphyne prometia que não faria novamente.

E, naquele momento, acreditava sinceramente na própria promessa.

Até Fink e Dink aparecerem no dia seguinte.

— Seraphyne!

Ela olhava para Rainara.

Rainara olhava para ela.

Um longo silêncio surgia entre as duas.

Então Seraphyne sorria da maneira mais inocente que conseguia.

— Nós vamos ficar perto dessa vez.

E lá iam as três novamente.

Talvez Seraphyne ainda não percebesse, mas aquelas pequenas aventuras significavam muito mais do que simples brincadeiras.

Aos poucos, a menina que crescera protegida pelos pais começava a descobrir que existia um mundo para além da segurança que Rainara e Vernathor haviam construído ao seu redor.

E Seraphyne queria conhecê-lo.

Mesmo que, por enquanto, tivesse coragem de avançar apenas alguns metros de cada vez.
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Fink e Dink, entretanto, estavam longe de ser as únicas amizades que Seraphyne havia construído em Arabella.

As irmãs Manolli tinham uma habilidade quase sobrenatural para encontrar problemas e, consequentemente, passavam uma quantidade considerável de tempo de castigo. Sempre que alguma de suas aventuras terminava com uma bronca particularmente séria dos pais, Seraphyne precisava encontrar outra companhia para preencher os dias que normalmente passaria correndo pela floresta com as duas.

Foi assim que acabou se aproximando ainda mais de Lioren.

Uma jovem fada da mesma idade que Seraphyne.

Lioren era diferente das irmãs Manolli.

Enquanto Fink e Dink corriam em direção ao perigo pela emoção de fazer algo proibido, Lioren parecia sempre procurar alguma coisa.

Era curioso, atento e um pouco misterioso. Gostava de observar conversas de longe, guardar pequenos detalhes e fazer perguntas que normalmente deixavam os adultos desconfortáveis.

Principalmente quando essas perguntas envolviam os desaparecimentos.

Desde que Seraphyne começara a circular livremente por Arabella, também havia percebido aquele estranho padrão. Pessoas que conhecia simplesmente deixavam de aparecer. Algumas morriam pelos perigos naturais da floresta, mas havia aquelas sobre as quais ninguém parecia disposto a falar.

Lioren percebera exatamente a mesma coisa.

A diferença era que ele não conseguia simplesmente aceitar.

Sua curiosidade, que inicialmente não passava de uma inquietação infantil, tornou-se algo muito mais intenso quando alguém de sua própria família desapareceu.

Em um dia estava ali.

No outro, não.

Lioren perguntou onde estava.

— Foi escolhido.

Foi a resposta que recebeu.

Escolhido para quê?

Silêncio.

Quando voltaria?

Não voltaria.

Por quê?

Porque havia sido escolhido.

Era sempre assim.

As respostas davam voltas e terminavam exatamente no mesmo lugar.

Quando Lioren insistia demais, algum adulto encontrava uma maneira de mudar de assunto. Outros simplesmente diziam que ele compreenderia quando fosse mais velho. Alguns até sorriam, como se houvesse algo bonito naquela resposta.

Seraphyne também perguntava.

E recebia exatamente o mesmo tratamento.

Escolhidos.

Aquela palavra parecia resolver tudo em Arabella.

Uma fada desaparecia?

Havia sido escolhida.

Alguém perguntava para onde ela tinha ido?

Era melhor não se preocupar.

Perguntavam quando voltaria?

Não voltaria.

E se uma criança ousasse perguntar por quê, os adultos subitamente tinham alguma outra coisa importante para fazer.

Para Lioren, aquilo era um absurdo.

Quanto mais tentava compreender, mais parecia que todos ao redor já haviam combinado previamente aquilo que deveria ou não ser dito.

Nada escapava.

Nenhum adulto falava demais por acidente.

Nenhuma história contradizia outra.

Nenhum deles parecia sequer considerar estranha a quantidade de perguntas que permaneciam sem resposta.

Era como se tudo tivesse sido minuciosamente calculado.

E Lioren começou a investigar.

Naturalmente, sua ideia de "investigar" ainda era a de uma criança.

Observava quais fadas desapareciam.

Tentava descobrir quem havia conversado com elas pela última vez.

Prestava atenção aos adultos quando acreditavam que ninguém estava ouvindo. Guardava nomes, lugares e datas. Às vezes seguia alguém por alguns minutos até perceber que não fazia ideia do que faria caso realmente descobrisse alguma coisa.

Seraphyne frequentemente o acompanhava.

Não porque compartilhasse daquela obsessão.

Na verdade, aquilo a preocupava.

— Talvez seja melhor deixar quieto.

Ela dizia isso mais vezes do que gostaria.

Para Seraphyne, algumas coisas simplesmente não pareciam precisar de resposta. Seus pais haviam lhe ensinado a tomar cuidado com aquilo que não conhecia, e Arabella possuía mistérios demais para que uma criança decidisse investigar justamente aqueles que faziam até os adultos evitarem o assunto.

Lioren discordava.

Se ninguém queria responder, para ele aquilo significava apenas que havia alguma coisa para ser descoberta.

Seraphyne achava aquela lógica terrível.

Mas continuava acompanhando-o.

Porque gostava de Lioren.

Gostava bastante, na verdade.

Talvez mais do que compreendesse naquela idade.

Havia algo diferente na maneira como se sentia perto dele. Seraphyne procurava sua companhia mesmo quando Fink e Dink não estavam de castigo. Prestava mais atenção quando ele falava, ria de coisas que talvez nem fossem tão engraçadas e, quando Lioren se aproximava demais enquanto lhe mostrava alguma de suas "descobertas", ela sentia uma estranha necessidade de olhar para qualquer coisa que não fosse o rosto dele.

Era uma sensação nova.

Inocente.

A primeira pequena paixonite de uma criança que ainda nem sabia direito o que significava gostar de alguém daquela maneira.

Seraphyne jamais teria coragem de contar.

E Lioren provavelmente estava ocupado demais pensando nos desaparecimentos para perceber.

Por isso ela apenas permanecia ao seu lado.

Mesmo quando não considerava saudável aquela obsessão.

Mesmo quando achava que ele estava procurando respostas para perguntas que talvez fosse melhor deixar esquecidas.

Quando Lioren encontrava alguma nova pista, seus olhos se iluminavam de entusiasmo. Falava rapidamente, mostrava suas anotações e criava teorias cada vez mais elaboradas sobre o que poderia estar acontecendo.

E Seraphyne gostava de vê-lo daquele jeito.

Feliz.

Então escutava.

Perguntava.

Ajudava quando podia.

Se aquilo era importante para Lioren, acabava se tornando importante para ela também.

Seraphyne ainda não queria descobrir para onde iam os escolhidos.

Lioren queria.

E, naquele momento, gostar dele era motivo suficiente para acompanhá-lo.

Nenhum dos dois compreendia ainda que algumas perguntas em Arabella permaneciam sem resposta por um motivo.

E que, naquele reino, descobrir para onde iam os desaparecidos era muito mais perigoso do que desaparecer.
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A adolescência de Seraphyne foi, considerando tudo o que significava crescer em Arabella, surpreendentemente tranquila.

Os anos passaram entre pequenas aventuras com Fink e Dink, tardes acompanhando as investigações cada vez mais elaboradas de Lioren e os longos sermões de Vernathor sempre que alguma dessas atividades terminava de uma maneira particularmente irresponsável.

Seraphyne crescia.

Suas asas se fortaleciam, sua curiosidade aumentava e, pouco a pouco, os pais passaram a lhe conceder uma liberdade que durante a infância jamais teriam permitido.

Foi também nessa época que começou a perceber algo curioso.

Seraphyne nem sempre se sentia muito... fada.

Não fisicamente.

Era impossível esquecer o que era quando se tinha asas nas costas.

O problema eram os costumes.

O povo feérico possuía tradições antigas, superstições e regras sociais tão específicas que algumas pareciam ter sido inventadas apenas para tornar qualquer conversa desnecessariamente complicada. Muitas não eram seguidas com tanto rigor pelas fadas da ferrugem, enquanto outras haviam sobrevivido mesmo depois de incontáveis gerações em Arabella.

Seraphyne achava algumas interessantes.

Outras, simplesmente bizarras.

Desde pequena, por exemplo, aprendera que presentes jamais eram apenas presentes.

Uma tarde, ainda jovem, Seraphyne encontrou uma artesã trabalhando próxima à entrada de sua moradia. Ficou fascinada por um pequeno pingente que ela havia produzido e, depois de alguns minutos de conversa, a fada simplesmente o colocou nas mãos de Seraphyne.

— É seu.

Seraphyne abriu um enorme sorriso.

— Muito obrigada!

A artesã parou.

Seraphyne também.

As duas permaneceram se encarando.

A adolescente imediatamente percebeu que havia feito alguma coisa errada.

Naquela noite, Vernathor precisou explicar novamente uma das regras mais antigas de seu povo.

Para algumas fadas, agradecer por um presente daquela maneira poderia significar encerrar uma relação de reciprocidade que ainda não havia sido cumprida. Para outras, receber algo criava uma dívida, independentemente de ela ter sido mencionada.

— Então ela me deu porque queria alguma coisa?

— Talvez.

— E o que ela quer?

— Você perguntou?

— Não.

— Então talvez fosse importante ter perguntado.

Seraphyne ficou alguns segundos olhando para o pingente.

— Posso devolver?

Rainara, sentada do outro lado da sala, ergueu lentamente os olhos para a filha.

Vernathor suspirou.

— Agora seria pior.

Seraphyne passou a desconfiar de presentes durante algum tempo.

Palavras também eram perigosas.

Entre algumas famílias, nomes completos eram tratados com extremo cuidado. Existia a antiga crença de que um nome não servia apenas para identificar alguém: ele era uma pequena parte daquilo que a pessoa era.

Por isso Seraphyne aprendera cedo a nunca responder distraidamente a certas perguntas.

"Posso ter seu nome?"

A resposta correta não era simplesmente entregá-lo.

Uma das primeiras vezes em que ouviu aquela pergunta de uma fada mais velha, respondeu com outra:

— Pode saber como me chamam.

Vernathor ficou particularmente orgulhoso naquele dia.

Fink e Dink, por outro lado, acharam aquilo ridículo e passaram uma semana inteira tentando criar perguntas que pudessem fazer Seraphyne entregar acidentalmente alguma coisa.

— Posso ter sua atenção?

— Não.

— Posso ter um minuto?

— Também não.

— Posso ficar com...

— Dink, se você terminar essa frase eu vou embora.

As duas caíam na gargalhada.

Seraphyne não sabia até onde aquelas histórias eram verdadeiras e onde começavam apenas as superstições acumuladas durante gerações.

Preferia não descobrir.

Algumas tradições eram ainda mais antigas.

Havia histórias sobre fadas de outros lugares que roubavam crianças de povos estrangeiros e deixavam criaturas feéricas em seu lugar.

Seraphyne achava aquilo particularmente perturbador.

Certa vez perguntou a Rainara por que alguém faria uma coisa dessas.

A mãe permaneceu em silêncio.

Como sempre.

Então Seraphyne procurou Vernathor.

— Você roubaria o filho de alguém?

— Não.

— Eu também não.

E aquilo bastou para ela.

Outras histórias falavam de viajantes que aceitavam comida oferecida pelo povo feérico e nunca mais conseguiam abandonar suas terras. De homens que entravam em círculos de cogumelos, dançavam durante uma única noite e, ao retornarem para suas casas, descobriam que décadas haviam transcorrido.

Seraphyne gostava particularmente dessas histórias.

Não porque acreditasse nelas.

Mas porque Lioren acreditava.

Ou, pelo menos, queria descobrir se eram verdadeiras.

Os dois passaram uma tarde inteira discutindo sobre o que aconteceria caso entrassem juntos em um círculo feérico.

— Talvez quando saíssemos daqui todo mundo estivesse velho — disse Lioren.

Seraphyne olhou para ele.

— Nós somos fadas, Lioren.

— E?

— O círculo é de fadas.

Lioren ficou em silêncio.

— Talvez funcione mesmo assim.

— Essa é sua justificativa para tudo.

Seraphyne jamais entrou no círculo.

Lioren também não.

Principalmente porque Seraphyne segurou sua roupa quando percebeu que ele realmente estava considerando testar a teoria.

Mas havia uma antiga superstição que ela considerava especialmente engraçada.

Ferro.

Em muitas histórias estrangeiras, ferro era utilizado para afastar seres feéricos.

Ferraduras eram penduradas sobre portas. Lâminas de ferro eram carregadas como proteção. Algumas histórias chegavam a afirmar que o simples contato com ferro frio poderia queimar a pele de uma fada.

Seraphyne ouviu essa história pela primeira vez durante a adolescência.

Olhou para a pessoa que contava.

Depois olhou ao redor.

Arabella inteira cheirava a ferro.

As árvores pareciam enferrujadas.

O solo possuía tons metálicos.

A água carregava vermelho.

Seraphyne pegou um pequeno fragmento enferrujado do chão e apertou contra a palma.

Nada aconteceu.

— Acho que somos fadas ruins.

A frase virou uma piada entre seus amigos durante semanas.

Talvez as fadas da ferrugem simplesmente fossem diferentes.

Ou talvez, depois de incontáveis gerações vivendo naquele lugar, aquilo que deveria afastar seres feéricos tivesse se tornado parte delas.

Seraphyne preferia a segunda explicação.

Era mais interessante.

Entretanto, nem todas as histórias eram divertidas.

Algumas falavam sobre músicas capazes de fazer alguém abandonar voluntariamente sua casa. Melodias tão bonitas que uma pessoa poderia caminhar sorrindo para dentro da floresta mesmo sabendo que jamais encontraria o caminho de volta.

Outras mencionavam criaturas que surgiam apenas para anunciar que alguém estava prestes a morrer.

Havia ainda relatos sobre enormes procissões sobrenaturais atravessando regiões inteiras durante a noite, arrastando consigo qualquer infeliz que estivesse no caminho.

E havia as histórias sobre a própria floresta.

Essas Seraphyne respeitava.

Porque algumas ela sabia que eram verdadeiras.

Os habitantes mais velhos diziam que certas regiões da Floresta Sangrenta não gostavam que visitantes fossem embora.

Caminhos mudavam.

Árvores apareciam onde antes não existiam.

Uma pessoa podia jurar estar caminhando em linha reta e, horas depois, encontrar as próprias pegadas diante de si.

Fink e Dink descobriram isso da pior maneira durante uma de suas pequenas aventuras.

As três haviam avançado apenas alguns metros além do permitido.

Como sempre.

Quando decidiram retornar, Seraphyne apontou para onde tinha certeza de que ficava Arabella.

Andaram.

E encontraram uma árvore partida ao meio.

Dink reconheceu imediatamente.

— A gente já passou aqui.

Fink discordou.

Seraphyne olhou para o chão.

Havia três pares de pequenas pegadas na lama.

Delas.

Nenhuma das três achou graça.

Tentaram outra direção.

Algum tempo depois, a mesma árvore apareceu.

Na terceira vez, Seraphyne começou a entrar em pânico.

Foi Fink quem lembrou de uma história que ouvira dos adultos.

Virou parte de sua roupa do avesso.

Dink fez o mesmo.

Seraphyne, achando aquilo completamente idiota, acabou imitando as duas.

Poucos minutos depois encontraram Arabella.

Nenhuma delas conseguiu explicar o que havia acontecido.

Seraphyne nunca contou aos pais aquela parte da aventura.

E passou a respeitar um pouco mais as histórias antigas.

Ainda assim, existia uma coisa sobre as fadas que talvez fosse a mais importante de todas.

Beleza não significava bondade.

Isso era ensinado desde muito cedo.

Algumas das criaturas mais perigosas descritas nas antigas histórias feéricas eram também as mais belas. Seres de aparência impecável, vozes gentis e sorrisos acolhedores podiam conduzir alguém para a morte sem jamais precisar ameaçá-lo.

Uma fada não precisava mentir para enganar.

Não precisava atacar para ferir.

E não precisava parecer monstruosa para ser um monstro.

Seraphyne compreendia a ideia.

Mas não gostava dela.

Talvez porque fosse bondosa demais para enxergar naturalmente o mundo daquela maneira.

Ela preferia acreditar que as pessoas eram aquilo que demonstravam ser. Que gentileza significava gentileza. Que um sorriso podia simplesmente ser um sorriso.

Lioren dizia que essa confiança ainda acabaria colocando-a em problemas.

Seraphyne respondia que a desconfiança dele provavelmente faria isso primeiro.

E assim sua adolescência continuou.

Entre brincadeiras, pequenas aventuras, costumes que considerava absurdos e histórias que talvez fossem apenas histórias.

Seraphyne conhecia as lendas sobre fadas que roubavam pessoas.

Sobre acordos escondidos em palavras.

Sobre músicas que levavam viajantes para a floresta.

Sobre seres belíssimos capazes de esconder intenções terríveis.

Achava tudo aquilo fascinante.

Às vezes, até assustador.

Mas eram histórias sobre outros lugares.

Outras fadas.

Outros monstros.

Seraphyne nunca imaginou que talvez o costume mais terrível de seu povo estivesse acontecendo bem diante de seus olhos.

Porque, enquanto ela aprendia a desconfiar de presentes, nomes, músicas e círculos de cogumelos, ninguém havia lhe ensinado a desconfiar da palavra que escutava desde criança.

Escolhido.

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Seraphyne continuou vivendo seus dias com a mesma tranquilidade que havia marcado boa parte de sua juventude.

Entre as pequenas aventuras, as conversas com Lioren, as visitas aos habitantes de Arabella e as inevitáveis confusões envolvendo as irmãs Manolli, os anos passaram quase sem que ela percebesse.

Até que Seraphyne completou dezenove anos.

Para uma fada da ferrugem, aquela não era uma idade qualquer.

Era a maioridade.

Seraphyne esperava que aquele fosse um dia especial. Talvez Fink e Dink aparecessem cedo demais em sua casa, talvez Lioren fingisse ter esquecido apenas para irritá-la. Imaginava alguma pequena comemoração, comida, música ou qualquer uma das tradições que acompanhavam os momentos importantes de sua vida.

Mas naquela manhã não houve nada.

Nenhuma festa.

Nenhuma música.

Nenhuma surpresa preparada pelos pais.

Rainara e Vernathor apenas pediram que a filha se sentasse com eles.

Seraphyne percebeu imediatamente que havia alguma coisa errada.

Vernathor, que normalmente encontrava palavras para qualquer situação, demorou a começar.

Rainara estava ainda mais silenciosa que o habitual.

Então, finalmente, seus pais lhe contaram aquilo que durante dezenove anos haviam evitado explicar por completo.

E, pela primeira vez, Seraphyne compreendeu o que significava ser uma fada da ferrugem.

A ferrugem de Arabella não estava apenas nas árvores.

Não estava somente no cheiro metálico do ar, na coloração da água ou na terra avermelhada sob seus pés.

Ela também estava nelas.

As fadas da ferrugem não possuíam vidas breves simplesmente por natureza. Existia uma enfermidade antiga espalhada por aquelas terras, algo que os habitantes haviam aprendido a chamar simplesmente de Doença da Ferrugem.

Ela avançava lentamente.

Algumas fadas resistiam durante muitos anos.

Outras começavam a apresentar os sinais ainda muito jovens.

O corpo enfraquecia. A pele mudava. Aos poucos, aquilo que Arabella colocava dentro delas começava a cobrar seu preço.

Era por isso que tantas não chegavam sequer aos dezesseis anos.

Mas havia uma forma de conter a doença.

Não curá-la.

Apenas... controlá-la.

Muito antes do nascimento de Seraphyne, os habitantes de Arabella haviam descoberto que certas entidades imanentes ligadas àquelas terras possuíam influência sobre a praga. Entre elas estava aquela que se tornara a mais importante para o reino.

Chrazgor.

As oferendas mantinham sua proteção.

Algumas vidas eram entregues para que muitas outras pudessem continuar.

E enquanto os sacrifícios fossem realizados corretamente, a doença parecia recuar sobre determinadas fadas. Algumas conseguiam ultrapassar os poucos anos que normalmente lhes seriam concedidos.

A família Duskwither estava entre aquelas que haviam se beneficiado dessa proteção.

Seraphyne permaneceu em silêncio.

Durante alguns instantes, apenas encarou os pais.

Então todas as pequenas coisas que nunca haviam feito sentido começaram a se encaixar.

Os desaparecimentos.

Os dias em que determinadas regiões de Arabella eram fechadas.

Os horários estranhamente rígidos.

As ocasiões em que os adultos mandavam as crianças entrarem em casa antes do habitual.

As respostas evasivas.

Os Acólitos Carmesim.

Os escolhidos.

Seraphyne sentiu o estômago embrulhar.

— Então eles estão matando pessoas?

Vernathor tentou explicar.

Não era exatamente assim.

Ninguém era arrastado contra a própria vontade.

Ninguém precisava ser caçado ou acorrentado.

Esse talvez fosse justamente o aspecto mais difícil de compreender.

As próprias fadas se ofereciam.

Para grande parte dos habitantes de Arabella, entregar a própria vida para prolongar a existência de dezenas de outras não era uma sentença.

Era uma honra.

Algumas famílias celebravam quando um de seus membros era escolhido. Havia despedidas, presentes, músicas e histórias sobre aqueles que haviam partido antes deles.

A morte havia sido transformada em dever.

Vernathor e Rainara nunca concordaram verdadeiramente com aquilo.

Mas também não haviam sido capazes de mudá-lo.

Era uma tradição muito anterior à chegada dos dois. Não bastava dizer aos habitantes que parassem. Seria necessário convencer gerações inteiras de fadas de que aquilo que aprenderam a considerar o maior gesto de amor possível era, na verdade, uma tragédia.

Vernathor descreveu aquilo da maneira mais simples que conseguiu.

Era quase um suicídio coletivo transformado em cultura.

Seraphyne levantou-se.

— Isso é um absurdo.

Tentaram acalmá-la.

Não funcionou.

— Então façam alguma coisa!

Vernathor tentou responder.

— Seraphyne...

— Vocês são os Conselheiros!

— Nós aconselhamos. Não governamos.

— Então convençam eles!

A voz dela começava a falhar.

Seraphyne nunca havia compreendido por que alguém que vira na semana anterior simplesmente desaparecia.

Agora compreendia.

E preferia não compreender.

Perguntou se não existia outra maneira.

Outra entidade.

Alguma cura.

Algum lugar para onde pudessem ir.

Qualquer coisa.

Rainara e Vernathor não tinham uma resposta que satisfizesse a filha.

E naquele aniversário, pela primeira vez em sua vida, Seraphyne saiu de casa com raiva dos próprios pais.

Precisava conversar com alguém.

Precisava de Lioren.

Talvez porque, de todas as pessoas que conhecia, ele fosse a única que passara anos dizendo que havia algo errado.

Durante toda a adolescência, Seraphyne pedira que ele deixasse aquilo quieto.

Agora queria encontrá-lo e dizer que ele estava certo.

Correu até os lugares onde normalmente se encontravam.

Lioren não estava.

Foi até sua casa.

Nada.

Perguntou aos vizinhos.

Ninguém sabia dizer.

Procurou nos caminhos próximos à floresta, nos lugares onde ele costumava observar os adultos e até em alguns dos esconderijos que os dois utilizavam quando eram crianças.

Nada.

As horas passaram.

A irritação começou a dar lugar ao medo.

Seraphyne procurou novamente.

Depois outra vez.

Até perceber que estava repetindo exatamente aquilo que fizera tantas vezes durante a infância.

Procurando alguém que estava ali ontem.

E que hoje simplesmente não estava mais.

Foi então que chamou Fink e Dink.

As irmãs Manolli haviam mudado bastante desde os dias em que as três avançavam alguns metros floresta adentro apenas para sentir medo e depois correr de volta para casa.

Ainda eram Fink e Dink, naturalmente.

Ainda discutiam por motivos idiotas e ainda possuíam uma capacidade impressionante de transformar qualquer situação em confusão.

Mas haviam encontrado algo em que eram genuinamente boas.

Máscaras.

As duas passaram a produzi-las quando ainda eram jovens e, com o tempo, aquilo deixou de ser apenas um passatempo. As peças começaram a chamar atenção por toda Arabella, cada uma feita à mão, com formatos, expressões e significados diferentes.

Assim nasceu o Ateliê dos Dinks.

Apesar do nome causar discussões intermináveis sobre por que apenas uma das duas parecia ter recebido crédito, o lugar havia se tornado um dos estabelecimentos mais conhecidos de Arabella.

Fink e Dink raramente eram vistas sem alguma de suas próprias criações cobrindo o rosto.

Quando Seraphyne apareceu desesperada procurando por Lioren, as duas inicialmente sequer compreenderam a gravidade da situação.

Era o aniversário dela, afinal.

E elas tinham algo preparado.

Antes que Seraphyne pudesse terminar de explicar tudo, uma das irmãs estendeu um pequeno embrulho.

— Feliz aniversário!

Seraphyne quase recusou.

Quase.

Mas quando abriu, encontrou uma máscara.

Tinha o formato de um sol radiante.

Os detalhes se espalhavam ao redor do rosto como pequenos raios e, quando a luz tocava sua superfície, algumas partes pareciam brilhar.

Por alguns segundos, toda aquela angústia desapareceu.

Seraphyne passou os dedos cuidadosamente pela máscara.

Era linda.

Fink e Dink haviam feito aquilo especialmente para ela.

Mesmo desesperada, Seraphyne sorriu.

Um sorriso pequeno.

Mas verdadeiro.

— Eu adorei.

As duas imediatamente começaram a discutir sobre qual delas havia feito a melhor parte.

Por alguns instantes, Seraphyne quase conseguiu esquecer o motivo pelo qual estava ali.

Então olhou novamente para os caminhos de Arabella.

Lioren ainda estava desaparecido.

O sorriso sumiu.

Ela segurou a máscara do sol contra o peito e pediu:

— Me ajudem a encontrar ele.

Foi então que Fink e Dink perceberam que aquilo não era apenas mais uma preocupação exagerada de Seraphyne.

As três passaram o restante do dia procurando.

Percorreram Arabella de um lado ao outro.

Perguntaram por Lioren.

Chamaram seu nome.

Visitaram lugares que frequentavam desde crianças.

Nada.

Quanto mais o sol desaparecia atrás das árvores enferrujadas, mais uma palavra começava a ocupar os pensamentos de Seraphyne.

A mesma palavra que ouvira durante toda a vida.

A mesma resposta que os adultos davam sempre que alguém desaparecia.

A palavra cujo verdadeiro significado seus pais haviam finalmente lhe contado naquela manhã.

Escolhido.

Seraphyne apertou a máscara de sol entre as mãos.

Não.

Lioren não podia ter sido escolhido.

Não naquele dia.

Não justamente ele.

Porque, se havia alguém em Arabella que jamais escolheria voluntariamente desaparecer em nome daquela tradição...

Era Lioren.
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Seraphyne continuou procurando.

Mesmo depois de Fink e Dink voltarem para casa, mesmo depois de as pequenas luzes das moradias começarem a desaparecer uma por uma, ela permaneceu nas ruas de Arabella.

Lioren precisava estar em algum lugar.

Era isso que repetia para si mesma.

Talvez estivesse escondido.

Talvez tivesse seguido alguma pista sem avisar ninguém.

Talvez tivesse finalmente encontrado alguma coisa sobre os desaparecimentos e estivesse esperando por ela em algum dos lugares que frequentavam desde crianças.

Qualquer explicação servia.

Qualquer uma, menos aquela palavra.

Escolhido.

Seraphyne se recusava a voltar para casa.

Não queria encontrar Rainara.

Não queria ouvir Vernathor tentando explicar outra tradição que ela não conseguia aceitar.

Não naquela noite.

Não depois de passar o próprio aniversário descobrindo que algumas das pessoas que conhecera durante toda a vida haviam caminhado voluntariamente para a morte.

Por isso continuou procurando.

Sozinha.

A noite caiu completamente sobre Arabella e, com ela, veio uma longa madrugada.

As ruas pareciam diferentes naquele horário.

O reino que Seraphyne conhecia tão bem havia se tornado silencioso demais. Portas estavam fechadas. Janelas permaneciam cobertas. Pouquíssimas fadas circulavam pelos caminhos entre as árvores.

Foi então que ela percebeu uma luz.

Vermelha.

Não o vermelho apagado das folhas enferrujadas ou das pequenas lanternas utilizadas pelas fadas.

Era intensa.

Vibrante.

Pulsava em algum ponto escondido de Arabella.

Seraphyne parou.

Por um instante, todas as histórias que ouvira durante a infância voltaram à sua mente.

As regras.

Os horários.

Os lugares que não deveria visitar.

Tudo aquilo que, até aquela manhã, parecera apenas mais uma das incontáveis peculiaridades de Arabella.

Talvez devesse ter ido embora.

Talvez devesse ter voltado para casa.

Mas Lioren ainda estava desaparecido.

Seraphyne seguiu a luz.

Quanto mais avançava, mais distantes ficavam as regiões que conhecia. Passou por caminhos estreitos entre raízes, atravessou pequenas construções abandonadas e chegou às margens do rio.

Ali encontrou um antigo galpão.

Seraphyne não se lembrava de já ter prestado atenção naquela construção.

Parecia velha demais até mesmo para Arabella. A madeira estava escurecida pela umidade, raízes haviam crescido sobre parte das paredes e o telhado inclinava-se perigosamente em direção às águas avermelhadas.

A luz vinha de dentro.

Seraphyne sentiu medo.

Então se lembrou do presente que ainda carregava consigo.

A máscara.

O pequeno sol radiante que Fink e Dink haviam feito para seu aniversário.

Por algum motivo, colocá-la sobre o rosto mudou alguma coisa.

Era estranho.

Seraphyne sabia que continuava sendo ela.

Ainda estava assustada.

Ainda queria voltar.

Mas escondida atrás daquele rosto dourado, parecia mais fácil continuar andando.

Como se a máscara carregasse uma coragem que ela própria não possuía.

Talvez fosse apenas a sensação de anonimato.

Talvez fosse outra coisa.

Seraphyne nunca conseguiu explicar.

Aproximou-se cuidadosamente do galpão.

Encontrou uma janela próxima ao rio e, tentando não fazer qualquer barulho, ergueu-se o suficiente para olhar através dela.

Havia muitas fadas lá dentro.

Nenhum rosto estava visível.

Todas vestiam capuzes carmesins, antigos e rasgados, que escondiam suas feições sob sombras profundas.

Os Acólitos Carmesim.

Seraphyne não precisava que ninguém lhe dissesse.

Reconheceu os cânticos.

Reconheceu o nome repetido entre as vozes.

Chrazgor.

No centro do galpão havia um altar.

E sobre ele...

Seraphyne parou de respirar.

Durante um dia inteiro ela havia procurado aquele rosto.

Seu amigo.

O garoto misterioso que passara a infância investigando perguntas que ninguém queria responder.

A pessoa que sempre insistira que havia algo errado com os desaparecimentos.

Sua primeira paixão.

Lioren.

Ele estava desacordado sobre o altar.

Seraphyne não se lembra perfeitamente do que aconteceu depois.

Nunca se lembrou.

Existem partes daquela madrugada que permanecem claras demais.

Outras parecem ter sido arrancadas de sua cabeça.

Quando tenta recordar, algumas imagens aparecem fora de ordem. Rostos que provavelmente nunca viu. Palavras que talvez ninguém tenha dito. O vermelho das luzes misturado ao vermelho do rio.

Ela lembra dos cânticos.

Lembra do nome de Chrazgor sendo repetido.

Lembra de Lioren acordando.

E lembra do grito.

Esse nunca desapareceu.

Seraphyne recorda-se dele gritando seu nome.

Ou talvez não tenha gritado.

Às vezes acredita que sim.

Às vezes tem certeza de que Lioren sequer sabia que ela estava ali.

Depois...

O corpo dele começou a mudar.

Uma marca surgiu sobre seu tórax.

Uma mandíbula.

Seraphyne já havia ouvido falar sobre os sacrifícios naquela manhã.

Mas ouvir uma explicação era diferente de ver.

As costelas de Lioren começaram a se retorcer.

O peito se deformou enquanto os ossos se moviam para lugares onde ossos jamais deveriam estar. Cada costela curvava-se como um enorme dente, abrindo o próprio corpo até que sua estrutura já não lembrasse a de uma fada.

A mandíbula formada pelo próprio esqueleto se fechou.

E começou a devorá-lo.

Lioren gritava.

Os Acólitos continuavam cantando.

Seraphyne não conseguiu se mover.

Não conseguiu gritar.

Não conseguiu ajudá-lo.

A garota que passara a vida inteira correndo para socorrer qualquer pessoa que precisasse dela permaneceu completamente imóvel quando a pessoa que mais queria salvar estava diante de seus olhos.

Apenas assistiu.

Até que alguma coisa dentro dela se rompeu.

Seraphyne correu.

Não lembra de decidir fazer isso.

Em uma memória está diante da janela.

Na seguinte está correndo.

Galhos cortavam sua pele. Raízes surgiam sob seus pés. O ar queimava seus pulmões enquanto suas asas tentavam acompanhar o próprio desespero.

Em algum momento, a máscara caiu.

Seraphyne lembra vagamente de ouvir o objeto atingir o chão.

Não voltou para buscá-lo.

O sol radiante permaneceu para trás.

Assim como Lioren.

Depois disso, as lembranças se tornam ainda piores.

Seraphyne não sabe por qual caminho saiu de Arabella.

Não sabe quanto tempo correu.

Não sabe por quanto tempo tentou voar mesmo quando suas asas já não conseguiam sustentá-la.

Não sabe se alguém a perseguiu.

Em algumas noites, lembra de passos.

Em outras, lembra de algo muito maior se movendo entre as árvores.

Às vezes acredita ter ouvido seu nome vindo do rio.

Às vezes acredita ter ouvido Lioren.

E existem noites em que se lembra de uma voz que definitivamente não pertencia a nenhuma fada.

Mas, quando tenta agarrar essas lembranças, elas se desfazem.

Sua memória daquela noite terminou como o corpo de Lioren.

Retorcida.

Fragmentada.

Devorando a si mesma.

Seraphyne apenas sabe que continuou avançando.

Passou pelas árvores que durante toda a infância fora proibida de atravessar.

Passou pelos caminhos onde Fink e Dink jamais tiveram coragem de chegar.

Passou pelos limites da única casa que conhecera em toda a sua vida.

Até que, em algum momento daquela madrugada que parecia não terminar...

Arabella ficou para trás.

Seraphyne Duskwither havia passado dezenove anos protegida dentro de um reino que acreditava conhecer.

Precisou de apenas uma noite para descobrir o que realmente existia sob toda aquela beleza.

E fugiu sem olhar para trás.

Sem seus pais.

Sem Fink.

Sem Dink.

Sem sua máscara.

Sem Lioren.

Levando consigo apenas algumas lembranças quebradas...

e o som de alguém que amava gritando seu nome.
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Seraphyne correu até suas pernas não aguentarem mais.

E, quando finalmente não conseguiu correr, arrastou-se.

Quando suas asas voltaram a responder, tentou voar.

Quando falharam novamente, continuou andando.

Qualquer direção servia, desde que fosse para longe.

Longe do rio.

Longe dos cânticos.

Longe de Arabella.

Nos primeiros dias, Seraphyne sequer sabia dizer onde estava. A Floresta Sangrenta que durante toda sua infância representara o limite do mundo agora se estendia diante dela sem os caminhos conhecidos, sem as vozes de seus pais dizendo onde poderia pisar e sem Fink e Dink rindo alguns metros à frente.

Pela primeira vez em dezenove anos, estava verdadeiramente sozinha.

E descobriu rapidamente que o mundo além de Arabella não se importava com quem ela era.

Seraphyne tentou sobreviver da única maneira que conhecia.

Sendo gentil.

Pedia comida.

Pedia informações.

Oferecia ajuda.

Sorria para desconhecidos da mesma forma que sorria para os habitantes de Arabella.

No começo, acreditava que isso bastaria.

Não bastou.

Algumas pessoas eram boas.

Outras percebiam sua ingenuidade antes mesmo que Seraphyne percebesse suas intenções.

Foi enganada.

Recebeu informações falsas.

Confiou em pessoas que não mereciam confiança e descobriu que um sorriso podia esconder exatamente aquilo que as antigas histórias feéricas haviam tentado lhe ensinar durante toda a adolescência.

Beleza não significava bondade.

Gentileza também não.

A diferença era que, dessa vez, não existia Rainara para observá-la em silêncio quando cometesse um erro.

Não havia Vernathor para explicar por que aquilo tinha acontecido.

Seraphyne precisou aprender sozinha.

E aprendeu.

A fada sorridente de Arabella não desapareceu completamente, mas alguma coisa nela começou a endurecer.

Passou a questionar antes de confiar.

A desconfiar antes de aceitar.

Aprendeu a dizer não.

Aprendeu que algumas pessoas só respeitavam uma resposta quando ela era dada sem delicadeza.

Sua voz tornou-se mais firme.

Suas palavras, mais ríspidas.

E aquela antiga disposição para acreditar primeiro na bondade de alguém foi lentamente substituída pela necessidade de descobrir suas intenções.

Seraphyne continuava ajudando.

Continuava se importando.

Continuava sentindo demais.

Mas agora possuía espinhos.

Durante sua jornada, atravessou diferentes regiões do continente.

Passou por povoados cujos nomes esqueceu, dormiu em lugares onde jamais imaginara colocar os pés e conheceu povos que até então existiam apenas nas histórias contadas em Arabella.

Em cada lugar, aprendia alguma coisa.

Às vezes porque alguém estava disposto a ensinar.

Outras porque errar doía o suficiente para que não cometesse o mesmo erro novamente.

Ainda assim, não importava quanto se afastasse.

Arabella permanecia com ela.

Às vezes vinha através de um sonho.

Outras vezes através do cheiro de ferro.

Bastava ouvir uma música particularmente distante durante a noite para que seu corpo inteiro congelasse por alguns segundos.

E havia Lioren.

Ou aquilo que restava dele em sua memória.

Seraphyne tentava recordar seu rosto e, algumas vezes, conseguia.

Em outras, encontrava apenas um borrão.

Tentava lembrar de sua voz e escutava um grito.

Tentava recordar das tardes em que ele lhe contava alguma nova teoria sobre os desaparecimentos e acabava vendo novamente aquele altar.

Por muito tempo, Seraphyne tentou simplesmente continuar avançando.

Até que algo mudou.

Em algum ponto de sua viagem, recebeu um chamado.

Não soube explicar de onde vinha.

Não conhecia quem a chamava.

Sabia apenas que existia um reino relativamente próximo e que alguma coisa parecia conduzi-la naquela direção.

Talvez a Seraphyne de alguns anos antes tivesse hesitado.

Aquela não.

Encontrou a primeira carroça que seguia aproximadamente para onde precisava ir, conseguiu uma forma de acompanhar a viagem e subiu sem sequer saber exatamente o nome de seu destino.

Sentou-se entre caixas, sacos e mercadorias enquanto a carroça começava a avançar.

A cada movimento das rodas, ficava mais distante de tudo aquilo que conhecia.

De sua casa.

De sua cultura.

Dos pais que abandonara sem conseguir se despedir.

De Fink e Dink.

Da máscara de sol perdida naquela madrugada.

De Lioren.

Seraphyne olhou para trás apenas uma vez.

Arabella já não podia ser vista havia muito tempo.

Ainda assim, naquele momento, fez uma promessa silenciosa.

Ela voltaria.

Não naquele dia.

Talvez nem tão cedo.

Seraphyne sabia que, se retornasse naquele momento, não conseguiria mudar absolutamente nada. Era apenas uma fada assustada que havia fugido quando mais desejava ter tido coragem para agir.

Então faria aquilo que não conseguiu naquela noite.

Ficaria mais forte.

Aprenderia.

Conheceria o mundo que seus pais haviam mantido distante dela.

Descobriria se realmente não existia outra maneira de salvar seu povo da Doença da Ferrugem.

E, quando estivesse pronta, retornaria a Arabella.

Não para destruir sua casa.

Não para se vingar de seu povo.

Mas para acabar com aquilo que durante gerações havia convencido fadas desesperadas de que morrer era a maior demonstração de amor que poderiam oferecer umas às outras.

Seraphyne não sabia se conseguiria.

Não sabia sequer para onde aquela carroça a estava levando.

Mas sabia de uma coisa.

Nenhum outro Lioren seria escolhido.

Não se ela pudesse impedir.